Os caminhos alagados do Pantanal. Região do Rio Abobral, Mato Grosso do Sul. Dia 26/12.:: No rastro da onça-pintada

A onça-pintada, vista pelo imaginário coletivo do Pantanal

No Pantanal Mato-Grossense, a onça está em todas as partes. Inspira lendas; desafia a coragem de caçadores; decora orelhões nas cidades grandes; adorna rótulos de cachaça; tira o sono de meninos; povoa conversas de botequim; é desenhada em paredes de bordel e pintada em pára-choques de caminhão.

Nesta segunda reportagem da Expedição Coração do Brasil sobre a onça-pintada e sua mítica presença no Pantanal, foram reunidas as melhores histórias, lições e definições sobre o grande felino – animal que, apesar do risco de extinção, ainda sobrevive em grande número. Este é o resultado de muitas horas de entrevistas registradas durante as andanças da expedição pelos dois lados do Pantanal, o do Mato Grosso do sul e Mato Grosso. O resumo aponta para um só lado. Mais do que um bicho admirável, a onça, principalmente a pintada, é a entidade mais forte do imaginário do Pantanal.

TRAIÇOEIRA
A onça é um bicho sagaz. Só fica atrás da moita. Quando chega de aparecer, não é nem uma nem duas. São várias. O pior tipo é o que sai andando pelas estradas: são das traiçoeiras, que não têm medo e nem dó de ninguém… Voam para matar. – Fábio Marques da Silva, 63, agricultor pantaneiro e violeiro (Poconé/MT).

FORÇA DE TRATOR
Já vi onça pegar muita criação. Ela vem sondando e, quando o gado assusta, ela já voou no boi. Pega com uma unhada no nariz, outra no lombo, e aí mete o dente na nuca. Quebra o pescoço. Ela arrasta um boi inteiro. Porque onça não come no lugar que matou. O bicho tem força como se fosse uma esteira de trator. É muito perigoso esbarrar na carniça com ela por perto. – João Pequetito, 81, ex-boiadeiro, violeiro (Poconé/MT)

SANGUE FRIO
Encontrar com ela, desarmado, não é moleza. Você tem que ter coragem para resistir. Mas enfrentar ela no murro não dá. Tem que ir afastando para trás, bem devagar, mas sempre olhando ela de frente – se der as costas, o bicho avança. - Gonçalo Marques de Souza, 61, agricultor pantaneiro (Poconé/MT)

MILAGRE
A onça pegou um boi aqui na fazenda. Fomos seguindo o rastro de sangue. Chegando lá, atiramos numa fêmea grande. Só que apareceu outra na moita. O pessoal se distraiu. Aquela que levou o primeiro tiro veio pra cima de mim e pulou no cavalo. Cravou a unhada de uma pata na sela e a outra na broaca (espécie de bagageiro de couro usado pelos boiadeiros). Caiu meu revólver. Eu só conseguia gritar: oh, bicho!!! Aí vi uma imagem de Nossa Senhora e ela falou: a faca, pegue a faca na cinta. Taquei a faca na boca da onça e ela caiu. Levou junto eu e o cavalo. No chão, consegui catar o 38 e dei seis tiros nela. Se tivesse mais bala, matava os outros companheiros, que ficaram só olhando. Não atiraram no bicho porque estavam com medo de atirar e me acertar. – André Avelino, 44, peão pantaneiro (Pixaim/MT)

GRITAR E CORRER
O barulho as vezes assusta a onça. Se não tiver arma, tente gritar: ooooh, bicho!!!! Uma vez desci num barranco para pescar e dei de cara com uma pintada. Eu e meu companheiro pegamos os remos e começamos a bater no barco de alumínio. Ela foi embora. Mas se a onça for atrevida, não corre de grito não!– Luiz Antônio de Paula Silva – pescador, 54, Corumbá (MS)

RAIVA
Dois amigos meus estavam caçando quando a onça apareceu de surpresa, derrubou um deles e montou em cima. O companheiro que tava ao lado matou a onça antes que ela tacasse as unhas. Depois que acabou aquele confusão toda, o rapaz que tinha atirado falou para o outro: “mas aqui tá fedendo… Você sujou as calças compadre?”. Aquele que tinha sido atacado respondeu: “Foi… mas caguei de raiva desta onça, e não de medo!!!” – Fernando Larréa, 34, guia de turismo (Bonito/MS)

COMO PASSARINHO
Caçar onça com cachoro fica fácil se ela subir numa árvore. Aí fica igual a passarinho para morrer. Você bota o cachorro nela, ela trepa na árvore, você chega lá e mata. A pantomima da onça no Pantanal virou folclore. É o medo do nome que faz o pessoal ficar desse jeito apavorado. Ela tá roncando lá do outro lado do rio e para eles tá aqui na porta de casa. Agora, quando ela rosna, vou te dizer, treme o chão. Mas ela só ataca, faz esses mistérios que o pessoal fala, quando tá com fome, quando mexem na carniça que ela guardou ou quando tá com filhotes. Ainda tem muita onça aqui, apesar das queimadas. Vamos lá na estrada, te mostro a ‘batida’(pegada) dela. - Jadir Frota Hermel, 73, ex-caçador (Passo do Lontra/MS)

CAÇADOR VIRA CAÇA
Estávamos trabalhando eu e mais dois rapazes. Fomos caminhar a toa perto de uma cerca e achamos um ‘arrastador’. A onça tinha pego o bezerro, matou e arrastou. Um dos colegas foi pegar uma carabina. Eu disse: “você traz uma foice”. Era uma cipoada que não tinha jeito de entrar lá dentro. Tinha que um roçar e outro ir com a carabina. Ele falou: “voces estão com medo: eu entro aí sem foice sem nada!”. O companheiro metido a valente chegou, saiu do cavalo, atiçou o cachorro e foi correndo. Quando ele entrou lá, a onça deu um bufo que o cachorro cruzou por ele assim… voando. Só de susto, ele já deu um tiro à toa. Olhei para ele e disse: “e aí companheiro, vamo pra frente?”. Ele respondeu: “se nem esse cachorro véio fica lá, quem dirá eu… vamo larga mão”. Onça é assim, acaba rapidinho com a valentia! – Modesto Sampaio, 63, agricultor e pecuarista (Jardim/MS).

CORPO A CORPO
Tinha um amigo meu que cuidava de uma fazenda, na beira do Pantanal, com mulher e dois filhos. Ele foi pegar água num córrego e um dos guris foi atrás. O molequinho chegou correndo e disse para o pai que tinha visto um gato muito grande e preto. Ele pensou na mulher e no filho menor, que estavam em casa, e voltou correndo. Quando ele chegou, escutou o grito da mulher. A onça entrou dentro da casa e foi direto na cama do gurizinho. Rasgou tudo a cabeça do bebê. O cara entrou na casa e passou direto até o quarto… Achou uma faca no caminho. Chegou e abraçou com ela, uma onça parda. Matou na faca. Onde a onça passou a unha e o dente, a carne virou. Ficou cheio de cicatriz. O guri foi para o hospital e se salvou. – Fernando Larréa, 34, guia de turismo (Bonito/MS).

SEM MEDO
Medo não dá… Mas que assusta, assusta – Júlio César Oliveira, 36, boiadeiro, falando sobre a onça (Curva do Leque/MS)